Brasil, Uma Sociedade Aberta (Tele)Informatizada
A Sociedade Aberta (Tele)Informatizada

A Sociedade Aberta (Tele)Informatizada
por
Cesar Rômulo Silveira Neto
INFORMENTO Consultores Associados Ltda.
Rio de Janeiro, 26 de setembro de 1986


Aspectos Sócio-Econômicos

1o Período: Capitalismo Urbano Moderno
2o Período: Capitalismo Nacional
3o Período: Capitalismo Estatal
4o Período: Capitalismo Transnacional

Aspectos Sócio-Culturais

Aspectos Sócio-Políticos


Neste texto iremos tratar das principais características de uma Sociedade Aberta (Tele)Informatizada, desdobrando-as segundo os seus aspectos sócio-econômicos, sócio-culturais e sócio-políticos.

Aspectos Sócio-Econômicos
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Para melhor compreendermos os principais aspectos sócio- econômicos de uma Sociedade Aberta (Tele)Informatizada, também chamada de economia moderna - assim como os da dinâmica de seu desenvolvimento - conviria que a comparássemos, em sua essencialidade, com a economia que a precedeu: a economia tradicional.

Isto nos obriga a uma pequena digressão sobre o que vem a ser uma economia tradicional. Para tanto, três noções básicas são necessárias e suficientes para captar as características das economias tradicionais.

A primeira destas noções é a do "USO" ou "UTILIDADE". Esta é uma noção extra-econômica, subjetiva, mas a que todo o econômico tem que referir-se. O produto da atividade econômica visa satisfazer um determinado uso ou fruição. É deste modo que os objetos ganham o que na linguagem técnica da economia denomina-se "valor de uso".

A segunda noção - primeira propriamente econômica - é o "TRABALHO": poder transformador que aplicado à "NATUREZA" faz surgir a "forma" desejada: o "PRODUTO".

A um certo nível de desenvolvimento tecnológico - aqui entendido como saber aplicado - cada produto, em termos médios, requer uma certa quantidade de trabalho, aproximadamente computável em homens-hora ou, indiretamente, em salários pagos aos trabalhadores.

Isto permite que ao lado do "valor de uso" de certo produto passa-se a fazer corresponder um valor objetivo e mensurável que poderíamos denominar "valor do trabalho".

Estas duas determinações do valor do produto, uma subjetiva, variável para cada membro do grupo - o "valor do uso" - e outra objetiva, mensurável e relativamente invariante para todo o grupo - o "valor do trabalho" - ensejam a "TROCA", a terceira noção básica de uma economia tradicional.

Quem trocaria produtos absolutamentes iguais? Quem os trocaria se fossem completamente diferentes?

O produto, que agora passamos a denominar "MERCADORIA", tem esta singular propriedade: para dois elementos do grupo social as mercadorias trocadas são equivalentes em termos do "valor do trabalho" e diferentes em termos do "valor do uso".

A troca permite pois a maximização dos "valores de usos" das mercadorias produzidas internamente pelo grupo onde ocorreu a troca. A troca regularmente exercida denomina-se "MERCADO".

Vem pois, que na economia tradicional configura-se apenas um único mercado: o mercado de trocas de bens e serviços entre si.

Nestas economias pode, eventualmente, existir a moeda mas com a função básica de ser uma intermediária de troca. Um mero facilitador que torna possível que qualquer troca final se limitasse a uma cadeia de apenas duas trocas intermediárias. Nesta economia a moeda é uma mercadoria dentre outras só que com características especiais de durabilidade, portabilidade e divisibilidade.

A passagem para a economia moderna se dá por uma transformação estrutural de certo modo profunda. Para uma melhor compreensão desta transformação é necessário utilizar um conjunto de cinco - e não mais de três - noções básicas: a iniciativa econômica, o mercado monetizado de trabalho sistematizado, o mercado monetizado de bens e serviços, o mercado financeiro e o mercado do conhecimento.

A "INICIATIVA ECONÔMICA" é uma noção que corresponde à noção de "USO" na economia tradicional. Esta correspondência se justifica pelo fato de serem, ambas, noções extra-econômicas por excelência.

Na estrutura tradicional o econômico desagua no uso ou na fruição do produto econômico. Já nas economias modernas a liberdade de iniciativa insere-se no econômico. O mundo econômico passa a ser aquilo que enseja o exercício de uma liberdade: a livre iniciativa. Que enseja o exercício de um poder.

Neste caso, é importante observar que mantem-se a necessidade de se conceituar o econômico a partir de algo que o precede. Algo que seja essencialmente extra-econômico. No entanto, cabe ressaltar que na economia tradicional a relação é do econômico para o não-econômico e na economia moderna é do não-econômico para o econômico.

Não foram poucos os psicólogos sociais que viram na economia moderna uma válvula de escape à agressividade humana. Que se não aboliu pelo menos a diminui sensivelmente nas formas de conflitos religiosos, étnicos ou meramente políticos. As guerras e conflitos continuaram a existir mas fundamentalmente como um desdobramento dos conflitos econômicos, vale dizer, derivados das iniciativas econômicas.

A "INICIATIVA ECONÔMICA" é a prerrogativa essencial do "EMPRESÁRIO" - empreendedor econômico - personagem fundamental do mundo econômico moderno. Daqui deriva a visão Shumpeteriana da economia moderna e do seu dinamismo.

A segunda noção é a do "MERCADO MONETIZADO DE TRABALHO SISTEMATIZADO". É uma noção que deriva diretamente do "TRABALHO" da economia tradicional porém com duas características suplementares.

De um lado é trabalho sistematizado. Ou seja: é trabalho dividido em parcelas simples para quem o executa mas que precisa ser reintegrado por quem o planeja e o dividiu e que o dirige e controla. Por isso preferimos usar a expressão "sistematização do trabalho" ao invés da simples "divisão do trabalho" que esconde o sujeito que faz a análise e a síntese do trabalho dividido.

De outro lado temos o maior afastamento entre o "trabalho" e o "uso". Momentos que passam a ser mediatizados pelo "DINHEIRO". Antes era o "uso" que determinava o "trabalho". Agora o "uso" transforma-se em "demanda monetária" e este sim é que, em princípio, deveria determinar o "trabalho". É este aspecto que é enfatizado pelos economistas clássicos que veem a economia moderna essencialmente como um correlato da instauração do processo de divisão do trabalho.

Ao mercado de trocas de "dinheiro" por "trabalho" denominamos "MERCADO MONETIZADO DE TRABALHO SISTEMATIZADO" ou simplesmente "MERCADO DE TRABALHO".

A terceira noção: "MERCADO MONETIZADO DE BENS E SERVIÇOS" é um correlato necessário do "mercado monetizado de trabalho sistematizado". Na economia tradicional chegava-se ao "uso" diretamente pelo "trabalho" (auto-consumo) ou pela "troca de mercadorias". Na economia moderna chega-se ao "uso" através do "dinheiro".

Cumpre ressaltar que nas economias reais a relação uso/dinheiro (ou demanda) está invertida: a "oferta" é que determina o "uso", tanto quantitativamente - através dos custos de salários incorporados à produção - como qualitativa e estruturalmente - através dos instrumentos de "marketing".

No nosso entender foi o industrial e homem de negócios Henry Ford que melhor percebeu este fenômeno. Melhor que qualquer teórico da economia. Mais que isso: soube estender o processo de sistematização do trabalho para a produção de bens extremamente complexos. Reduziu, substancialmente, com os ganhos de produtividade obtidos, os preços dos bens produzidos. Com esta redução de preços associada a uma agressiva ação de "marketing", soube criar uma grande demanda para os bens ofertados. Um entendimento que fez escola.

As trocas de"dinheiro" por "bens e serviços" para "uso" constituem o que denominamos de "MERCADO MONETIZADO DE BENS E SERVIÇOS" ou simplesmente "MERCADO DE BENS E SERVIÇOS".

O "MERCADO FINANCEIRO" é a quarta noção fundamental. A moeda era utilizada como mero instrumento de trocas. Era suscetível de adquirir a função de "reserva de valor" dando ensejo à "troca no tempo". Na economia tradicional a troca homogênea era de produtos por produtos. Na economia moderna a troca homogênea é de "moeda-agora" por "moeda-depois", mecanismo propiciatório da "acumulação de capital".

No entanto, para que haja troca é necessário que subsista, ao mesmo tempo, uma equivalência objetiva e uma diferença subjetiva. A equivalência objetiva se estabelece através dos "juros de mercado", socialmente aceito e que de certo modo reflete um aumento médio esperado da produtividade da economia. A diferença subjetiva é reflexo da utilidade efetiva que a moeda tem para cada um dos agentes da troca.

Ao conjunto das trocas de "dinheiro", regularmente feitas, denomina-se "MERCADO FINANCEIRO".

A quinta e última noção fundamental é o do "MERCADO DO CONHECIMENTO". Esta noção deriva do fato de que nem todo o trabalho a exercer-se sobre a natureza. Parte deste trabalho é direcionado a exercer-se sobre o próprio trabalho garantindo a expansão intensiva da economia.

O trabalho sobre o trabalho toma a forma não só de novos conhecimentos capazes de ampliar a produtividade do trabalho como também transferindo conhecimentos "úteis" para terceiros.

Estas atividades dão ensejo a um mercado de patentes, licenças de uso, "khow-how" e assemelhados e a um mercado educacional que, em conjunto, formam o que denominamos de "MERCADO DE CONHECIMENTOS".

A comparação das duas economias - a tradicional e a moderna - pelo exame de suas características básicas nos mostra que os dois elementos realmente novos são a "acumulação de capital" e o "aumento da produtividade" - este como função dos conhecimentos acumulados. Cumpre ressaltar, no entanto, que apesar dos outros três elementos serem comuns às duas economias eles apresentam algumas características próprias e guardam relações distintas quando em cada uma das duas economias.

Focalizando portanto estes dois novos elementos veremos que eles guardam, entre si, uma relação essencial para a sobrevivência das economias modernas. Pode-se facilmente provar matematicamente que o processo de acumulação de capital a taxas superiores às taxas de aumento da população exige um permanente suporte mínimo de ganhos de produtividade /R9/. Caso contrário, não poder-se-ia aumentar o volume de capital por trabalhador e, concomitantemente, ter-se-ia um consumo físico "per-capita" progressivamente decrescente. Em tais condições, pensamos, tal economia não poderia sobreviver face às exigências de natureza social.

É óbvio que esta é uma condição média; que esta ou aquela empresa pode desviar-se desta posição. Pois uma determinada empresa pode estar crescendo com níveis de produtividade decrescente, mas, por certo, uma outra empresa terá que estar compensando esta condição desfavorável à sobrevivência da economia moderna. Quando tal compensação não ocorre estamos frente à principal causa das crises econômicas mais profundas e, por certo, das sucessivas crises econômicas brasileiras.

Daqui podemos tirar uma primeira tendência econômica a longo prazo:

as nações, especialmente as desenvolvidas, procurarão assegurar um afluxo permanente de ganhos de produtividade através do fomento e da coordenação da pesquisa e da formação de recursos humanos de alta capacitação.

As empresas buscarão, a seu nível, assegurar-se deste afluxo de ganhos de produtividade inclusive internalizando as atividades de desenvolvimento científico e tecnológico e até mesmo as de formação de recursos humanos, como já o fizeram a ATT americana e a NEC japonesa.

Após termos explicitado o nosso entendimento do que vem a ser a economia moderna cumpre ressaltar que ela não permanece estática. Ela já atravessou pelo menos três grandes períodos do desenvolvimento, que se caracterizam, justamente, pela sua abrangência; quais sejam (vide figura /F1/):

1o Período: Capitalismo Urbano Moderno
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Neste período a estrutura econômica moderna, com todas as suas cinco grandes funções, abarca apenas o perímetro urbano, em especial as atividades industriais.

2o Período: Capitalismo Nacional
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Neste período, a estrutura econômica moderna se estende à área rural. Podemos situar o início deste período logo após a Guerra da Seceção nos Estados Unidos. A partir deste momento as taxas de aumento da produtividade da indústria e da agricultura americana passaram a evoluir em paralelo, conforme demonstrado no gráfico da figura /F2/.

O grande historiador moderno Braudel /R26/ enfatisa este mesmo fenômeno mas prefere situar o seu início na Inglaterra. A nosso ver, mesmo que tenha ali começado, ele só atingiu a sua plenitude nos Estados Unidos, o que pode ser atestado pela vertiginosa queda da população economicamente ativa na agricultura a partir dos meados do século XIX e que prossegue até hoje, ainda que de forma menos acelerada, conforme ilustração contida na figura /F3/.

3o Período: Capitalismo Estatal
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Este período se caracteriza pela assunção pelo Estado de responsabilidade de natureza econômica.

Esta assunção se dá pela necessidade de se minorar a amplitude das crises cíclicas que abalavam as economias modernas ocidentais. Em função mesmo da natureza das crises - expansão em nível superior aos ganhos de produtividade - a ação do Estado centrou-se, a curto prazo, em buscar a estabilização seja dos preços seja dos níveis de empregos através de medidas de ordem creditícia, fiscais, monetárias, etc.

A longo prazo, centrou-se em fomentar a ampliação dos ganhos de produtividade através do financiamento do desenvolvimento científico e tecnológico. Mesmo quando este fomento é feito na área da Defesa Nacional, em maior ou menor espaço de tempo, os ganhos de produtividade acabam se transferindo para o setor civil da economia.

O início deste período pode ser datado com a publicação, em 1933, da "Teoria Geral" de Keynes ou, concretamente, na instalação da política do "New-Deal" por Roosevelt em 1936.

Cumpre ressaltar que a dominação econômica americana foi conseguida, segundo o semanário Economist de Londres, com "uma pequena vantagem cumulativa no crescimento da produtividade nos anos entre os governos dos presidentes Grant, na segunda metade do século passado, e Truman, logo após a II Guerra Mundial" /R7/.

Vale transcrever, neste ponto, palavras de Ludwing Erhard, ministro da Economia da Alemanha de 1949 a 1957:

Esta terceira fase do desenvolvimento da economia moderna traz em seu bojo um impulso de (tele)informatização. O Estado regulador necessita para suas tarefas de processar uma enorme quantidade de dados.

Não foi por acaso que o primeiro passo desse processo de informatização se dá no âmbito das atividades governamentais, com a mecanização da apuração do censo norte-americano, fato que deu origem ao que é hoje a poderosa IBM.

O segundo passo neste sentido, possibilitado pelo desenvolvimento da eletrônica, também foi determinado pelas necessidades do Estado. A fabricação do primeiro computador eletrônico, a válvula e destinado ao cálculo científico, foi desenvolvido para atender determinadas necessidades da Defesa Nacional norte-americana.

As grandes organizações econômicas no pós-guerra, com a franca e acelerada expansão de suas atividades, ampliaram a demanda por recursos de processamento automático de dados. Este aumento da demanda, aliado à invenção do transistor, do circuito integrado, dos circuitos de muito grande integração e da expansão dos sistemas de comunicações, propiciaram um acelerado processo de (tele)informatização da economia moderna.

Hoje, a (tele)informatização atinge diretamente todas as funções do sujeito econômico: da decisão à execução, conforme ilustrado na figura /F4/.

O computador, usado como simples processador de dados, atinge mais diretamente as funções de decisão e de planejamento, seja no âmbito de governos seja nas empresas.

Os computadores acoplados aos equipamentos de transmissão e de comutação de informações - constituindo as redes (tele)informatizadas - atingem mais fortemente as funções de controle e de coordenação das atividades empresariais e governamentais.

Por fim, integrados às máquinas ferramentas, interligados ou não às redes (tele)informatizadas, dá ensejo ao surgimento da "robótica", cuja incidência maior recai sobre a execução das atividades empresariais e das governamentais associadas à Defesa Nacional.

Cumpre melhor analisar e compreender a "robótica" face às mudanças que ela irá provocar (ou que já está provocando) no "MERCADO DE TRABALHO" - tanto no que diz respeito à natureza do trabalho humano em si quanto no processo de sistematização deste trabalho: desde o nível empresarial até o nível transnacional.

O "TRABALHO" é fundamentalmente o exercício de um poder transformador sobre a "NATUREZA". Este poder transformador possue duas características básicas. A primeira delas é a existência de uma disponibilidade de "energia livre" ou aplicável no esforço de transformação. A segunda é a existência de uma "forma intencionada", isto é, a existência de um projeto, de uma programação, para aplicação da energia disponível. Em síntese, o "trabalho" ou "poder transformador exercido" compreende, necessariamente, duas dimensões: a "energética" e a "informacional", conforme ilustrado na figura /F5/.

Inicialmente, o poder transformador foi totalmente mediatizado pelo "homem". A energia era proporcionada pela diferença entre as calorias ingeridas e as que ele consumia no seu funcionamento interno. A forma era expressa através de sua ação coordenada.

Uma primeira revolução se dá com o surgimento da "ferramenta". De um lado ela cria condições para uma melhor aplicação da força e, portanto, de um melhor rendimento energético. De outro lado ela cria condições de uma pré-seleção formal: ferramentas de arar, cortar, furar, amassar, etc.

O uso do animal domesticado entre o homem e a ferramenta se constitue num segundo grande passo na evolução do trabalho humano. É o animal que passa a dispender a maior parte da energia consumida pelo poder transformador. Ao homem ficou reservada a função informacional exercida pela domesticação, adestramento e condução do animal. Sem dúvida alguma o uso do animal representa um grande avanço na evolução do trabalho humano. No entanto, o aporte energético continua a ser mediatizado por um organismo vivo e, portanto, sujeito a todas as suas limitações.

Num terceiro momento o homem consegue fazer com que a energia seja diretamente aplicada à ferramenta: motor associado à ferramenta vem a constituir a máquina. Entretanto tal associação só se tornou efetiva na medida que o homem veio a controlar as fontes naturais de energia: carvão, quedas d'água, petróleo, vento, etc. A partir daí, no trabalho terminal, ao homem cabe apenas a função de exercer a função informacional pelo controle da máquina, sendo a energia inserida diretamente na máquina-ferramenta. Este processo generaliza-se com a mecanização industrial iniciada na segunda metade do século XVIII - dando origem à chamada Revolução Industrial.

Aqui temos que enfrentar um aparente paradoxo. É a partir deste momento que se faz mais dramático o processo de exploração do homem pelo homem. Isto se dá justamente porque não era mais o diferencial energético que se explorava, mas sim a sua capacidade psíquica. A primeira capacidade é claramente limitada. A segunda não. Explora-se o homem na medida em que ele é o "animal" mais facilmente "domesticável", "adestrável" e "programável" e "reprogramável" em "linguagem de altíssimo nível" - a linguagem natural - propiciando a "programação aplicativa" de alto nível.

Para que seja possível realizar esta programação aplicativa com razoável eficiência é preciso que o trabalhador:

Ou seja, é preciso que o trabalhador já esteja equipado com o "programa operacional".

Com a socialização dos custos da programação operacional - realizados pela família e pela escola primária - ficou para o empresário os custos da programação aplicativa, ou seja, o custo do treinamento para o trabalho. Por seu turno, estes custos poderiam ser minimizados com a divisão do trabalho em tarefas individuais cada vez mais elementares e mais simples.

Esta é, a nosso ver, a razão fundamental porque o homem explora o homem e não o tigre e o leão, animais dotados de um capacidade energética muito superior ao do homem.

Estas considerações são fundamentais para se poder avaliar as transformações sociais que advirão com a extensiva (tele) informatização da economia moderna, em especial, com o advento da "robótica".

O homem, que já havia sido liberado do fornecimento da energia ao processo transformador da natureza, será igualmente liberado da função informacional. Esta função será cada vez mais, inserida diretamente na máquina. O complexo motor-ferramenta está sendo rapidamente substituído pelo complexo computador-motor-ferramenta. O homem será cada vez menos necessário à produção propriamente dita, na medida em que estes computadores passaram a aceitar reprogramações em linguagem de alto nível.

Nestas condições a participação humana, na transformação terminal cada vez mais adestrita ao trabalho de supervisão do processo de produção robotizada. No entanto, a participação humana terá cada vez maior participação na criação dos complexos computador-motor- ferramenta, inclusive das programações operacionais e aplicativas necessárias às produções robotizadas.

A quem caberá arcar com os custos de formação, ou de reciclagem, do novo trabalhador? Nos países socialistas já está definido: o Estado. No Japão também: serão as próprias empresas. E nos demais países? Esta é uma questão que exige uma clara e urgente definição, sem a qual os problemas de desemprego se agravarão enormemente.

Achamos que o efeito da robotização industrial sobre a distribuição setorial da população economicamente ativa será semelhante àquele provocado pela modernização agrícola americana a partir da Guerra da Sesseção que, recapitulemos, reduziu a mão de obra agrícola de 60% para cerca de 3% hoje.

Não será surpresa se chegarmos ao fim do milênio - e faltam, para isso, apenas 14 anos - com um emprego industrial de apenas 12 a 15% da população economicamente ativa (vide figura /F6/).

Onde deverão estar alocados os outros 80%, ou mais, da população economicamente ativa disponível? Forçosamente no Setor de Serviços, como podemos visualizar nos gráficos já apresentados.

Esta é a razão da enorme pressão que os países desenvolvidos estão a fazer no GATT no sentido de se liberar as transações internacionais de serviços entendidas num sentido extremamente amplo: serviços financeiros, securitários, de acesso a bases de dados, etc. Os serviços (tele)informatizados têm aí uma importância capital pois são insumos para todos os demais.

Os sub-setores que ficarão mais sujeitos à pressão internacionalizante são - além dos (tele)informáticos - os financeiro/ securitário, a engenharia de projetos, os serviços de saúde, os de educação e os de consultoria empresarial. Todos pelo alto grau de qualificação profissional que exigem, e que exigirão, cada vez mais esta qualificação, e, consequentemente, pelo alto valor agregado neles contidos.

A bio-tecnologia deverá constituir-se num dos setores mais dinâmicos da economia moderna. Porém seus efeitos sobre a estrutura de emprego serão diminutos, pelo simples fato que o emprego agro-pecuário já se encontrar em níveis percentuais extremamente baixos nas economias dos países desenvolvidos.

4o Período: Capitalismo Transnacional
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Já há certos indícios de que a economia moderna começa a atravessar um novo período de denvolvimento. Período este que pode ser caracterizado por uma ampliação do âmbito da "unidade" econômica: uma "unidade" transnacional.

Temos de um lado a ação de estados buscando a integração de suas economias nacionais. O Mercado Comum Europeu é o exemplo mais exitoso. De outro lado, a ação das grandes empresas constituindo-se, através da dispersão da produção a nível de equipamentos e partes e da fabricação de modelos mundiais, em verdadeiras empresas multinacionais.

Observe-se ainda que, no pós-guerra, o comércio internacional, malgrado as práticas protecionistas generalizadas, cresceu a uma taxa média de 13% ao ano, sem que nenhum país tenha alcançado, isoladamente, este crescimento interno do produto. O simples fato desta taxa estar muito acima da média do crescimento do produto mundial indica que o grau de integração econômica internacional cresceu, de modo acelerado, de lá para cá.

Do exposto podemos arrolar as seguintes tendências derivadas do processo de desenvolvimento das economias modernas:

Maior ênfase no fundamental e no geral do que no aplicado e no específico;

Maior ênfase no conhecimento formal - lógica, matemática, linguagens formais - do que em conhecimentos específicos;

Maior ênfase no desenvolvimento da pessoa integral: criatividade, estabilidade emocional, participação, responsabilidade social mais do que disciplina, paciência, submissão.

Aspectos Sócio-Culturais
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Paul Strassmann /R24/ chama a nossa atenção para o fato de que não é muito difícil extrapolar a curso da evolução tecnológica, mas que é quase impossível, entretanto, conseguir descortinar seus desdobramentos sócio-culturais.

Embora previamente advertidos, mesmo sabendo das dificuldades que lhe são inerentes, tentaremos, neste item, esboçar, pelo menos, as grandes linhas do novo cenário sócio-cultural que resultará do processo de desenvolvimento da economia moderna no sentido de sua (tele)informatização e, talvez, de sua transnacionalização.

A primeira questão centra-se na posição que devemos assumir quanto ao sinal do processo de desenvolvimento provocado pela (tele) informatização. Será ela a derradeira fase de um antigo processo de desenvolvimento cultural? Ou marca uma nova fase no processo de desenvolvimento do ser humano?

Cremos ser mais acertado a primeira posição. A que considera como término de uma fase. Como derradeira manifestação da cultura científica e tecnológica que ainda vivenciamos. Opção que se impõe pelo simples fato de que a (tele)informatização é o prolongamento do processo de afirmação da razão formal; da razão calculadora que desabrocha com a Renascença, que se consolida teoricamente com Galileu e que desabrocha, concretamente, na Revolução Industrial nos fins do século XVIII.

A (tele)informatização é apenas uma extensão do processo de afirmação da razão formal à generalidade dos aspectos da vida social. Tendo ficado restrita, por quase dois séculos, às universidades, aos laboratórios e às fábricas, a razão formal passa a penetrar as demais instituições sociais, transformando-as radicalmente, como fez com as universidades e "ateliers" artesanais da Idade Média.

Ao afirmarmos que é a derradeira fase de uma época não estamos querendo dizer que ela deverá ser obrigatoriamente breve.

O que estamos querendo acentuar é que o verdadeiramente novo só poderá emergir como reação ao processo de (tele)informatização ou de sistematização da economia moderna e de nosso viver em sociedade. Vemos a (tele)informatização) como pré-requisito necessário do verdadeiramente novo.

Contudo alguns sinais nos fazem pensar que esta derradeira fase da cultura científica e tecnológica não será de grande duração. São sinais que se manisfestam já no início do processo de (tele)informatização: a violência urbana, o terrorismo internacional, o delicado equilíbrio atômico, os desastres ecológicos, a degenerecência do sistema educacional tradicional, o evidente desgaste da democracia liberal clássica, a reviravolta e a desestabilização da Igreja Católica após o Concílio Vaticano II, o esgotamento do poder de atração mística do marxismos-leninismo e tantos outros.

A nosso juízo os principais traços da cultura que emergirá deste caldeirão social serão os seguintes /R8/:

Finalizando este item, consideremos o que poderá acontecer com as culturas nacionais. As fontes de cultura dos povos têm sido o meio rural. As grandes cidades podem se dar o luxo cosmopolita, sem que isto comprometa a criatividade e a continuidade cultural das nações.

Atualmente estamos a assistir uma expansão acelerada dos meios de comunicação de massa e da (tele)informática paralelamente ao aumento da mobilidade física das pessoas e das famílias. Tais fenômenos estão a criar uma enorme pressão cosmopolitizadora que não está podendo ser contrabalançada pela pressão do meio rural que está se tornando cada vez mais rarefeito.

Nesta situação dois cenários singelos podem ser construídos. O primeiro supondo que as culturas nacionais desaparecerão. O segundo supondo que as cidades abandonarão o seu tadicional cosmopolitismo.

Achamos, sem grande convicção, que o segundo cenário terá maior chance de ocorrer. Neste caso as cidades sofrerão profundas transformações em sua razão de ser e, consequentemente, em seu funcionamento. Talvez no sentido da "ruralização cultural (tele) informatizada" de muitos pequenos grupos sociais urbanos, dentro da própria "urbs".

Aspectos Sócio-Políticos
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Os aspectos sócio-políticos de uma sociedade, embora guardem algum grau de especificidade, são fundamentalmente dependentes dos aspectos sócio-econômicos e, mais ainda, dos aspectos sócio-culturais desta mesma sociedade.

Nos países com maior nível de desenvolvimento este fenômeno é muito mais acentuado e portanto bem mais fácil de ser apreendido. Desta forma nos valeremos deste paradigma para expormos o nosso entendimento sobre este aspecto da sociedade aberta (tele)informatizada.

O desenvolvimento econômico é produtor de diferenças no seio da nação. Diferenças regionais, setoriais, sociais, etc. Por outro lado é precisamente a unidade cultural - aqui entendida como modos de interpretar e valorar a realidade - que fornece o poder de coesão. O político é justamente o lugar onde se defrontam as forças econômicas de dispersão e as forças culturais de coesão. Se estas últimas são suficientemente poderosas, a unidade fundamental pode ser reestabelecida, viabilizando a continuidade do processo de desenvolvimento econômico.

Para os países em "vias de desenvolvimento" este fenômeno é muito difícil de compreender pois aí as forças econômicas determinam tanto a política quanto a cultura o que em verdade não determina um modo de ser dentre outros mas sim um modo patológico de sobrevivência social.

No próximo item, ao examinarmos os traços políticos básicos da sociedade brasileira, nos aprofundaremos um pouco mais nesta importantíssima questão.

Agora, tão somente, apresentaremos o que achamos deverão ser os principais traços do cenário sócio-político das sociedades após terem ultrapassado o seu processo de (tele)informatização. Quais sejam:

Já na terceira etapa da evolução das economias modernas - a fase do "Capitalismo Estatal" - o Estado já deixava de ser uma instituição puramente política para se tornar político-econômica.

O novo Estado terá uma natureza tríplice: político - econômico - cultural. Não será surpresa se, mais breve que se possa pensar, o conceito de "Segurança Nacional", hoje marcadamente político/econômico, ao invés de desaparecer, transforme-se, pela incorporação de uma dimensão manifestamente cultural, no conceito de "Defesa da Identidade Nacional".
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